Perigo “das adaptações” no calendário de vacinação

Muitos pais perguntam aos pediatras se podem “pular, alternar ou juntar as vacinas” das crianças, ao invés de seguir o calendário de vacinação recomendado. É o que revela um estudo, publicado no Pediatrics. E pasmem! A maioria dos médicos concorda com o pedido, mesmo aqueles que acreditam que “os atrasos ou as adaptações” podem colocar as crianças em risco de doenças evitáveis ​​e tornar a experiência mais dolorosa.

O estudo traz dados muito interessantes sobre a imunização. Apenas cerca de 2-3% dos pais realmente se recusa a vacinar seus filhos. Mas há um número crescente de pais pedindo para fazer “adaptações” ao cronograma de vacinação. Segundo Allison Kempe, autor do estudo, ele esperava encontrar estas solicitações dos pais, mas não tão frequentemente quanto os dados com os quais se deparou: mais de 20% dos médicos disseram que 10% ou mais de sua clientela haviam pedido para alterar a data das vacinas.

Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos EUA, recomendam várias vacinas durante os primeiros anos de vida para proteger as crianças contra doenças. A programação é apoiada pela Academia Americana de Médicos de Família e pela Academia Americana de Pediatria, que publica a Pediatrics.

A Academia Americana de Pediatria diz que o esquema vacinal é projetado para funcionar da melhor maneira em função do conhecimento sobre o sistema imunológico das crianças, protegendo-as das doenças o mais rapidamente possível.

O novo estudo aparece justamente quando os americanos estão envolvidos numa batalha contra um surto de sarampo que infectou 154 pessoas de 17 estados, desde 20 de fevereiro. O surto está ligado à Disneylândia, na Califórnia. Para o estudo, Kempe e sua equipe, em colaboração com os CDCs, enviaram questionários a 815 pediatras e médicos de família, em todos os EUA, em 2012. Eles receberam 534 preenchidos. No geral, 93% dos médicos relataram pelo menos um pedido dos pais para espaçar as imunizações de uma criança com menos de dois anos de idade. 21% dos médicos disseram que pelo menos 10% das famílias fizeram essa solicitação.

Entenda melhor as razões das famílias

Os médicos disseram que os pais tinham uma variedade de razões para se desviarem do esquema de vacinação recomendado, incluindo preocupações sobre complicações e uma crença de que seus filhos não teriam uma doença evitável por vacina.

A maioria dos médicos que respondeu à pesquisa considera que não é do melhor interesse da criança ser vacinada fora do tempo recomendado para a vacina, mas a maioria concorda com os desejos dos pais. A percentagem de médicos que muitas vezes ou sempre concorda em espaçar as vacinas, além do recomendado, quase triplicou, de 13% em uma pesquisa similar de 2009, para 37% no estudo atual.

Os médicos disseram que tentaram educar os pais sobre a importância de seguir o calendário de vacinas recomendado, mas alguns sentiram falta de abordagens eficazes. Muitos profissionais relataram que eles não estavam fazendo a diferença, quando o tema era vacinação.

Dar aos pais novas informações pode provocar mais resistência a vacinar uma criança no futuro? Parece que sim. A razão exata para esse fenômeno não é clara. Para lidar com esta situação delicada, os estrategistas de saúde pública terão que ter em mente, em relação às vacinas, que há uma série de razões para que os pais optem por não vacinar os filhos.

Mesmo diante de resistências aqui e ali, no Brasil, de uma maneira geral, as taxas de vacinação atualmente são altas. Todas as estratégias e os esforços de comunicação devem se concentrar em manter estes números e não levantar mais preocupações sobre a vacinação. Dada a gama de grupos com algum impulso contra a vacinação, provavelmente não seja simples encontrar uma forma que seja eficaz para todos os pais. Há mensagens que realmente não funcionam, mas sempre podemos nos empenhar em desenvolver estratégias que elevem as taxas de vacinação.

A Academia Americana de Pediatria recomenda técnicas para a discussão de vacinas com os pais. Para que o discurso do médico possa ser eficaz, é preciso combinar várias técnicas, incluindo a educação durante a gravidez, uma cobertura mais responsável sobre vacinação ​​pelos meios de comunicação –  limitando o uso de isenções filosóficas – e uma melhor colaboração entre os departamentos de saúde pública. A culpa toda não pode recair apenas sobre o pediatra e o médico de família, pois o problema é bem maior que a atuação desses dois profissionais.

O Conselho Federal de Medicina e a Sociedade Brasileira de Pediatria divulgaram, recentemente, um alerta sobre os riscos dos movimentos antivacina que, na avaliação das entidades, estão crescendo no País. No comunicado, as associações observam que os relatos de que vacinas trazem elementos tóxicos ou nocivos em sua composição, que são ineficazes e que podem ser substituídas por outros métodos, não possuem base técnica ou científica.

O texto reforça a necessidade de que médicos orientem a população sobre a importância da imunização. “Não se vacinar ou impedir que as crianças e os adolescentes o façam pode causar enormes problemas para a saúde pública, como o surgimento de doenças graves ou o retorno de agravos de forma epidêmica, como a poliomielite, o sarampo, a rubéola, entre outros”, destacam as entidades.

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